A praia em branco

   Custou-me bastante tempo para reconhecer que dentro de mim havia qualquer coisa parecida com uma obsessão. Em minha vida tinha sido um homem apaixonado, mas moderado, se é que é possível tal conjugação de qualidades. Bem digo que assim me via, mesmo que não fosse.
   Comecei a escrever poemas depois de me separar de mulher que acreditava que seria minha companheira última, e que de fato foi.
   Numa idade que já não tinha muita expectativa do que o futuro me traria, confesso que me acomodei. Busquei nas minhas fantasias uma forma mais extravagante de viver, embora parecesse, de fora, completamente tediosa.
   Passava dias inteiros - certa vez uma semana - dentro de minha casa debruçado sobre poemas imensos que contavam histórias, quase sempre sem rimas, e com conteúdos sombrios, codificados, que só minha própria ótica era capaz de decifrar. Muitos deles guardei, outros queimei.
   Já nesse ponto da vida não tinha o luxo de ter amigos. O mais perto disso era a senhora do mercado na rua de minha casa e o vendedor de cigarros da esquina. A verdade é que não sei se em toda vida cheguei a conhecer a amizade. Companheiros sim, tive alguns, mas que se uniam a mim por meio de outro pretexto e cujos contatos se dissipavam assim que tal circunstância não existisse mais. Assim que não havia muita gente a quem mostrar o que escrevia, e nem sabia se queria, provavelmente não.
   Uma vez acabei esquecendo no mercado umas folhas que andava rabiscando um esboço, o poema contava por frases secas a rotina de um homem que cavava um túnel sem saber porquê. Na outra semana quando voltei ao mercado a senhora - nunca descobri seu nome - me entregou junto com o troco o chumaço de folhas. Fiquei um pouco ansioso, até curioso. "Será que ela leu?". Não perguntei, achei que ficar sem resposta era melhor para minha cabeça.
   Por alguns dias balanceei o que estava fazendo. Valia a pena mostrar pros outros o que escrevia? Eu mesmo me afadigava com alguns dos grandes poemas, e mais que isso, eu escrevia era pra mim mesmo, pra me entreter, pra me hipnotizar.
   A questão era que o acontecimento do mercado me desnorteou e a dúvida aberta naquela tarde se infeccionou em minha consciência. Comecei a fumar muito e a ficar extremamente inquieto dentro da casa. Lembro dos esboços daquela época, escritos numa caligrafia horripilante, em folhas amassadas em que escrevia enquanto caminhava aleatoriamente pela sala. Comecei a odiar o que escrevia. Culpei a caneta. Testei o lápis e até um pincel por um tempo, mas tudo me caía mal. Decidi que depois de mais de um ano nessa vida absurda de fantasiar e não viver deveria ir ver o oceano, sem papel, sem escrever. Não podia ter feito pior.
 

   Elegi uma das praias largas da Bahia e me hospedei em um cabana ao lado do mar. Passei alguns dias em paz, os últimos que me recordo, via o sol nascer e até interagia com as poucas pessoas que passavam pela praia. Uma noite percebi que a Lua estava pra nascer, desci até a areia e sentei-me nela, sentindo o vento forte e os respingos do mar na cara. Ali vinha ela, minguando, bem amarela. Um medo tímido mas prudente se apoderou de mim quando ela toda já se via por cima do horizonte. Por trás do som violento do mar eu escutava um sibilo grave e articulado que reverberava em minha cabeça. Era Ela. A Lua estava me amaldiçoando, hoje eu entendo tudo. Voltei à cabana em passos rápidos e inseguros. Fui dormir um pouco assustado, inquieto.
   Pela manhã a lua ainda visível não falava nada e a noite anterior me parecia um pesadelo. Fui caminhar um pouco, sentir o sol e a areia. Nessa noite me embebedei pela primeira vez em anos. Nos dias que seguiram comecei a estudar a consistência da areia nas diferentes alturas da praia. Me agradava a parte úmida, em que o pé afundava e não grudava na sola.
   O primeiro dia do final da minha história começou como os outros. Vi o sol nascer e caminhei pela praia que estava enorme pela maré baixa daquela manhã. Estava com a mente vazia, em estado de contemplação e descompromissadamente risquei com os dedos a areia úmida aos meus pés. Estava a semanas sem escrever, e o que saiu foi todo espontaneidade, de um fundo que não controlava e tampouco conhecia. Os dois versos que saíram foram os melhores e mais simples que já escrevi, e se bem me lembro perfeitamente deles, tenho medo de repeti-los e percebo hoje que foram a inauguração da minha ruína.

Sou, irremediavelmente, produto do que não controlo
Serei, sempre e unicamente, momento e passado

   Depois de escrever me levantei, caminhei talvez quilômetros para o norte, tirei toda minha roupa, que era pouca, e mergulhei no mar. Horas depois voltei e lá estava o poema impresso na areia, e embora tivesse pensado naqueles versos todo o tempo, era diferente vê-los ali na areia, como se fossem vivos. Pensei se não poderia modificá-los, mas percebi que não, não tinha esse direito. O poema agora era da praia.
   Marquei com um tronco a altura da praia onde estava escrito o poema e fui para a cabana. Passei o dia distraído e desconfiado e logo cedo adormeci. A primeira coisa que fiz quando me despertei foi pensar nos versos. Uma onda escura passou pelos meus pensamentos. Era noite e saí da cabana. O frio da Lua me abateu ao ver a maré alta e violenta. Caminhei, e enquanto caminhava me dava conta do inevitável que era tudo aquilo e de como eu era uma ponta infeliz e necessária de uma grande estrutura de ironias. Não havia dúvidas de que o mar crescera muito além do ponto onde estava o poema, mas mesmo assim caminhei até o tronco que deixara. Ao chegar o sol já nascia. Revolvendo-se em inúmeras ondas viajava agora a areia que era poema.
   Repeti mentalmente os dois versos e não soube dizer se era eu quem os tinha escrito ou se era o poema que se escrevia. Se por uma lado era tão óbvio, por alguma frente vulnerável da minha consciência esse processo se arrastou e violou minha estrutura, me deprimiu, ainda que também me desafiou.
   Sentei nos barrancos de areia seca e esperei por horas que a maré baixasse. Enquanto esperava sentia um vazio tomando conta de mim, algo assim como uma perda total de controle. Já era de tarde quando o mar estava bem recuado e caminhei até a profundidade do poema, já sabia com minhas razões que não havia chance das palavras seguirem impressas, mas tinha no fundo da mente a esperança de que tinha produzido algo imortal. Uma areia plana me recebeu por todos os lados. O poema estava morto. Sentia-me triste, e a areia úmida aos meus pés me conformava. Não tinha a coragem de escrevê-los de novo. Tomei um banho de mar, e enquanto saía da água tive ideias, inevitavelmente imprimi-las na areia. Desses outros versos já não me lembro, porque de alguma maneira o canal superior tinha se fechado, e o poema que saía agora eram daquelas velhas longas histórias, complicadas e indecifráveis. As minhas histórias, que eu detestava.
   Ao terminar o poema voltei para a cabana sem ao menos lê-lo, sabia que odiaria, queria somente tirá-lo de mim, arrancar da minha consciência aqueles versos absurdos que bloqueavam minha vida. Queria purificar-me. Abandonei o poema ao mar e sabia que assim matava-o.
   Dia após dia volto à areia e escrevo meus poemas, cada vez mais longos e cada vez mais absurdos. Escrevo para esquecê-los. Escrevo-os para matá-los. Mato-os para viver. Como um infeliz que duvida de si mesmo e sacrifica suas próprias estruturas mentais para tentar adaptar-se numa realidade impossível eu caio na areia com minhas palavras esperando que um dia finalmente cesse esse fluxo alucinante que transborda minha mente para que então eu encontre a paz.

Uma história que encontrei embaixo de uma pedra

Lentamente migrei-me de um sonho para o despertar, recebendo de forma progressiva a consciência suavemente domada. Levantei-me da cama calmamente e deliciei-me com o silêncio da rua.
Decidi permanecer de jejum para manter a mente ativa e sob controle. Encostei-me na janela do quarto para observar o céu. As nuvens tinham formatos pitorescos e nítidos e o azul no alto era claro e pacífico. Abri a janela. A temperatura do ar me pareceu agradável e uma brisa fresca corria por debaixo da sombra de inúmeras árvores.
Irracionalmente, e de maneira iquestionável, decidi ausentar-me das obrigações da rotina e do trabalho, e ao invés, caminhar ao abrigo das sombras até um grande lago não muito distante da minha casa. Vesti-me e saí em silêncio.
No caminho para o lago, já na saída da cidade, um homem velho acompanhou-me com o olhar desde longe. Estava sentado no chão, vestido em roupas simples e surradas, de pele preta e cabelo e barbas brancas. Quando finalmente cruzei-me com ele, mostrou-me um sinal com a mão e deti-me. O velho levantou-se e aproximou-se de mim. Seu olhar era sincero e intenso e seus movimentos suaves e precisos. Olhou-me profundamente nos olhos e falou-me em uma voz firme, grave e gentil:
“ Você irá agora ao lago, em busca de paz. No meio do caminho encontrará uma casa de pedra antiga que nunca antes havia notado. Terá vontade de entrar, mas antes anotará, com os papéis e lápis que te darei, toda a história desse dia para certificar-se da própria existência, e também da minha. Terminado o relato deixará os papéis ao lado do caminho, embaixo de uma pedra, e caminhará em direção à casa.
Assim que entrar no recinto irá abater-lhe atemporalmente a irreversibilidade dos passos que se seguirão. Uma voz mansa e firme te conduzirá a um assento que não será nem rocha nem madeira e acomodará suas dores e alegrias numa posição confortável mas que não será simples. O pouco que ainda verá será induzido a deixá-lo, fechando sobre a cara olhos já distantes.
                Uma voz te alcançará num idioma que não reconhecerá e que não poderá reproduzir e no entanto compreenderá cada sinal que receberem suas percepções, essas já ampliadas, embaralhadas e irreconhecíveis.
                Ora sons te amaciarão os ouvidos, primeiro um, depois outro, logo perceberá no silêncio o anti-som e que esse nasce de todos os pontos ainda que de nenhum em particular. Uma tonada da voz te clareará por inteiro a visão de um rio. Suas águas barrentas e inesgotáveis serpentearão os pés de montanhas, que sangrarão sua neve e somarão-se ao grande rio. Será dado a você o tempo necessário para que explore e descubra as sinuâncias e as peculiariedades de tal conjugação, mas ao realizar uma curva inevitável, indispensável ao seu caminho, uma montanha magnânima e coroada de gelo e nuvens te fará perder o equilíbrio e uma sensação que correrá transversalmente sobre os diferentes níveis da sua realidade fulminarão no ímpeto irrefreável de abrir os olhos, que fará do rio e do vale escuridão e vazio. Terá ânimo de falar, como para queixar-se ou explicar-se, mas será antecipado pela voz que lhe conduz que qualquer manifestação daquela espécie será insuficiente, inapropriada e indiferente. Uma torrente imediata te fará esquecer o caso, e você se perguntará se sequer aquilo teria acontecido.
                Novamente fechará os olhos e da escuridão ressurgirá o rio, agora caudalento e rompendo-se em rochas imensas plantadas em seu caminho tortuoso. Instintivamente perceberá que o rio é vivo. Compreenderá que a voz que lhe alcança é o som de tudo somado e interferido no tempo e no espaço, que serão indistinguíveis, e interpretará a voz naquele momento como violenta e agitada, ao menos de início. Você se sentirá confuso e amedontrado, mas as condições e as ferramentas necessárias para o seu auto-controle estarão sob o seu poder, e calma, luz e paz sobresaírão após os desafios que te forem impostos. Ultrapassadas essas circunstâncias você entrará num domínio mais profundo, onde poderá visualizar o vazio do medo e de todas as coisas.
         Perceber uma visão de olhos fechados lhe sustentará o ânimo de ir mais além. De súbito compreenderá que deve unir-se ao rio, afinal o rio é você. Encarará absolutamente aquela realidade e saltará com firmeza para dentro do rio que será barrento e incontrolável, numa corredeira que se aprofundará em uma grande boca de pedra, cavada funda entre o emanharado de montanhas.
                Uma vez que livrar-se do medo e unir-se ao rio e todo o ao redor poderá, finalmente, libertar-se definitivamente de todos os sentidos que íão até então moldurando de maneira fantástica, mas ainda assim limitada, a sua experiência. Livre, você flutuará fora do tempo e do espaço, e será puro ser, sem saber como será então. Você se dissolverá numa existência elementar, sem barreiras físicas e corpóreas, e será ali eterno e infinito.”

                

Aída e Eículo Ongo

   Anunciaram três vezes no vilarejo que o senhor e a senhora Ongo tinham finalmente esvaziado o casarão e partido para não mais voltarem. Sua estadia perdurou pelo tempo suficiente para que a vida passasse por vários níveis de condição e que uma inquietação já madura e não mais suportável arrancasse-os pela raiz e sacudisse-los os ânimos, a ponto de que depois da decisão final, apenas dez dias se passaram até que finalmente partiram. Foi esse um tempo memorável dos habitantes do povoado, e não por surpresa, pois não havia dúvida de que o Sr. Eículo e a Sra. Aída eram os tipos mais curiosos que apareceram pela região em muito tempo.
   Especial encanto invocava na gente do povoado o casarão onde viveu o casal desde que chegaram ali, num verão antigo, em que uma seca forte afugentou o casal de seu antigo lar. Sua construção foi rápida e silenciosa, dois dias depois do casal chegaram meia dúzia de pessoas igualmente estranhas e de aparência vulgar. Em uma semana levantaram e finalizaram as paredes geométricas e improváveis que abrigavam os Ongo. Durante a construção a população estranhou que nenhuma carroça tinha chegado da cidade trazendo tijolos e que não usaram o adobe que o Sr. Mariano fabricava, o único que sabia fazer uma fórmula boa o suficiente para que as casas aguentassem o verão chuvoso da região. As janelas não eram retangulares e o vidro de que eram feitas parecia ter cor e curvas.
   Dessa época o alfaiate, Carlos Magno, contou história por muito tempo, da oportunidade em que hospedou Aída e Eículo antes que a casa ficasse pronta. Notou desde o começo a peculiaridade dos novos moradores, mas reconheceu de cara o caráter e a boa conduta dos dois apesar da aparência estranha e as maneiras incomuns. De fato, Carlos Magno colocou-os em alto estima desde o primeiro almoço em que estiveram juntos, quando Eículo tirou de sua bolsa as duas garrafas de vinho mais saborosas e embriagantes que desfilaram por debaixo de seus bigodes experientes e gulosos.
   Entre as peças que desfilaram na rua nesses dez dias nas mãos de conhecidos estavam fantoches de pano em cores fumegantes e em formatos de seres fantásticos, uma moldura vazia entalhada num maciço de bronze em que uma serpente se enrolava em braços humanos, uns de mãos dadas aos outros, e três peças de porcelana pintadas que se encaixavam e formavam um cachimbo de um metro de longitude. Mas a peça mais curiosa ficou com dona Martinez, a senhora que ficou encarregada do jardim dos Ongo por quinze anos. A preciosidade era uma escultura de uma mulher que olhava para o alto e que era maleável, feita inteiramente de prata, com exceção aos olhos, que eram gemas cuidadosamente lapidadas, e que davam ao rosto da escultura a aparência bizarra e grotesca que Aída tanto se incomodava nos dias em que estava mais sensível. Na parte dos ombros os braços transladavam entre duas posições: em uma delas as mãos deitavam-se sobre o rosto, tampando assim os olhos loucos, e na outra os braços baixavam até o tronco, deixando as mãos numa posição tal que segurava o ventre. Eículo descreveu minunciosamente a maneira que a escultura deveria ser exposta: primeiramente, a peça deveria ser colocada virada para o norte na primeira lua nova depois do solstício do inverno com as mãos sobre o ventre, e a cada dia que o braços fossem levantados de pouco a pouco, de forma que na lua cheia as mãos cobrissem os olhos.
   Aída disse a Martinez anos depois em uma carta que a escultura fora um presente de um judeu que encontraram em Quito, depois de uma noite de rituais inconcebíveis numa sinagoga em ruínas. Segundo o judeu a escultura era parte da herança de seu pai, um negociante de prata que enriqueceu na base do contrabando de peças que vinham da Bolívia.
   Martinez seguiu com rigor as recomendações de Eículo, embora na primeira lua cheia as mãos estivessem ligeiramente deslocadas dos olhos da imagem. E foram muitos ciclos que passaram antes que a mulher de prata finalmente tampasse os olhos no dia de lua cheia.
   Havia já dois meses que o casal estava fora do vilarejo e tudo parecia do normal e do ordinário. O seu Tomás, ferreiro do sítio, sentia falta das encomendas estranhas do casarão, e a dona Lívia, tão pobre, vendia agora metade das tortas que antes vendia.
  Ao carteiro chegou a mensagem que Eículo e Aída estavam já em outro continente, e mais nenhum reclame se ouviu no vilarejo, fosse por medo de pecado ou maldição.
   E enquanto vivia o povo no vilarejo a rotina dos dias, a que dava sentido ao despertar e ao adormecer, Aída e Eículo Ongo viviam passos que nunca seriam revividos num ritmo destemido e inesperado, ora cambaleante, ora inesquecível. Estre passos que deram passaram por cima de montanhas e também por baixo delas, chegaram a viver num lago e por vezes foram ao céu. O primeiro desencontro não tardou a vir. Sob muitas escolhas as mentes patinaram e chocaram-se. Ora, não nega-se que houvessem confrontos, mas souberam fazer daquelas cicatrizes pontes para outros horizontes e o pouco de dúvida que restou deliciosamente se transformou no prazer do inesperado.
   Nas orelhas Aída carregava porcelana valiosa, que contava séculos de história e pedaços do futuro. Mesmo assim obstinava-se ao uso de chapéus, aos quais atribuía má fortuna e tragédia. Por seu lado Eículo dedicava horas de seu tempo na construção de um tratado matemático que elucidava a geometria dos chacras.
   Assim caminhavam Aída e Eículo Ongo, um com assombro do passado e outro com esperança do futuro, buscando no nunca uma brecha do destino no qual a vida fosse farta e fácil, livre do pesar e do real e cientes do fardo da mudança, ambos caminhando na trilha do imprevisível.

Sobre Ramón e o Poço


Três luas se passaram e quando na primeira pia pôde lavar a boca, cuspiu sangue. Sobre o bronze, esculturas. Dividida em retângulos, formava um dodecágono, a pia. Das lembranças e da herança do que foi, cingiam-lhe no rosto lágrimas de suor. No corpo ascendiam-lhe vibrações instáveis, na mente uma areia branca.
Tirou das vestes o seu corpo. Submergiu sob líquidos bafejantes, estranhos. No despertar da latência do sonho, catapultou-se no desejo de deitar-se na sombra, e em baixo de um verde vivo largou mão de resistir o que lhe puxa e cedeu ao chão carne e osso untado a sangue.
Viram carregarem-lhe formigas sobre a trilha, houve quem notasse uma ou outra raiz de árvore que abraçava-o pela cintura. Mas nos mais tardar de três translações sobreveio a nanição. Retirou-se com pressa. Sob esculturas, bronze. Queimando-lhe o pé. Vigor de concreto.
Quando voltou a um vilarejo que fora conhecido não tardaram a dizer, "Fez por merecer". E ninguém sabia por onde tinha posto os pés o indigente. Perguntavam-no, "Que cicatriz é essa que leva no olho?". Ao que respondia com um chute no chão e um sussurro indecifrável.
Num retorno do fantástico, descobriu-se no interior de um poço retangular, largo. Numa treva sólida cusparadas de luz jorravam um som distante, atrasado. Tremores nas paredes de pedra, brilhantes na luz, gelada e úmida no escuro. Na cabeça um inclinar temoroso sobre o inconcebível. O tempo da luz e do som diminuía, quando pingos primeiros borbulharam no fundo do poço. Dos ecos faziam-se muitos. À luz gelada que serpenteava o ar, gotas caíam como diamantes, pesadas. Do lado de fora, na superfície, com o som de milhares de passos ao redor, estalos e chacoalhadas de galhos.
Até que a luz e som se tocaram no tempo, luz pálida violeta, som estridente e frenético. Da boca do poço gotas que doíam-lhe a cabeça, água rápida. Os joelhos, antes secos já tremiam por dentro da água fria do céu. Olhando para cima as gotas entravam-lhe nos olhos e as rajas de luz por dentro do cérebro faziam vir à retina padrões concêntricos, rodopiantes. O que antes nasceu temor amadureceu pavor. Na pedra lisa os dedos perdidos nada conseguiam. Já na barriga a água era negra, e quando luz chegava, superfície áspera era, como que gotas indo e vindo por essa interface acidentada.
Chegou a escorregar no fundo escorregadio e por um pequeno período o som se abafou e as luzes embora onipresentes se embassaram. De volta ao ar um tremor da parede fez cair uma pedra da superfície. E o que era pavor apodreceu derrota, e no fundo vieram somar lágrimas à guilhotina que vinha. Primeiro de desespero, depois de esperança inocente, "Talvez venha tanta coisa que eu me escapo pelo topo". Longo tempo passou, ou talvez instantes, a luz rasgada do céu fizera-o cego, ou confuso, que de olho fechado via manchas coloridas, banais, e com pálpebras retraídas via só o que tentava imaginar. Do fundo, que agora era nuvens e lágrimas alcançava-o até os ombros o domínio submerso. Depois nunca mais parou de chover, diminuiu e continuou diminuindo por todo o tempo sem que no entanto acabasse a água que caía. Isolado, conclui que não deve chorar, que talvez o acúmulo do que saísse chegaria ao seu nariz e ao seu pulmão e não tardava já estava no olho de novo.
Num estado surreal e já longe das faculdades do bom senso percebeu que por dias a água caía e do ombro não passava a interface flutuante da morte afogada. Não ousava submergir a cabeça por um momento sequer, sonhou acordado e se viu num tabuleiro de xadrez. Estava na linha dos peões, ao lado de outras figuras tão miseráveis quanto ele, à frente, muito longe um exército sombreado, rodeado de torres octogonais e ruídos cadavéricos. Ao acordar, era o que imaginava ele, que agora acordava, como se antes tivesse adormecido, pois luz nenhuma arranhava o céu agora e o negro era o tom de tudo, ao acordar desistiu do mundo e resolveu baixar a cabeça. Não tinha fome nem medo mais. Abriu os olhos no útero preto que o contia e viu como que um daqueles diamantes que caíram anos atrás do céu, agora subindo do fundo, de uma distância intensamente perturbadora, e com o que restava de ânimo mergulhou na direção, esticando os braços e a esperança. Não alcançou e o fôlego lhe faltou, endireitou o corpo no que achou que era o eixo do mundo e tentou ficar de pé. Fosse o que foi, não alcançou. Nadou em vão para cima, para o lado. Nada mais firme que água ao redor. Voltou a cabeça pro diamante do fundo e se empurrou para ali, já com as lágrimas de volta ao pulmão, pesadas. Sentiu o peso do mundo cruzando seu corpo, a mão esticada num último desespero quando o que era um diamante, seu corpo atravessando um limiar inusitado, mostrou-se a boca do poço, acesa com a luz do sol, e os pés que antes sacudiam à esmo firmaram-se num lodo grosso.
De novo tinha a água nos ombros, de novo só, no poço. Ao longe o ronco da tempestade que se não o matara, o fez louco. Por mais incontáveis translações choveu, e o máximo que podia, ainda sob o preço de um afogamento, era alternar entre os dois poços a que era eternamente prisioneiro.

Anita


Era 1609 quando Anita saiu flutuando de Praga procurando fugir do tédio e da tortura, e por mais de trezentos anos vagou até firmar pé em lugar algum, quando então não mais fazia sentido sua viagem, e como sua própria existência já era extraordinária. 
No fluir do futuro elegeu os dois principais - e naturalmente secundários (por serem dois) - enganos da humanidade. Entre eles, o de acreditar que o símbolo substitui o significado, e o outro o de não considerar um sonho como parte da Realidade.
Por muito tempo pingou de cabeça em cabeça, tendo inclusive ficado presa por anos num guarda-roupas em Oxford se alimentando apenas de pão e vinho, quando finalmente conseguiu em 1963 arrebentar-lhe as portas, e por puro descuido e afobação chegou com pressa demais nos delírios de Aldous Huxley, mergulhado em LSD, e as visões que lhe entregou do século XXI foram demais para suportar. Segundo conta em sua biografia, Anita nada tem a ver com o incidente em Dallas, alegando que àquela hora já estava chegando na Bolívia, conversando em quechua com o décimo quarto decendente de Pachacuti.
Antes disso, no entanto, Anita passou doces anos nas ilhas do Pacífico praticando orgias intermináveis em dimensões diferentes. Uma de suas amantes mais próximas dessa época afirma vir daí seu único filho. Nascido do choque de oito gametas na dimensão unidirecional do tempo (incluindo um grão de pólen e um átomo excitado de enxofre), foi posteriormente diluído no espaço, desconhecedor do seus pais e de sua forma.
Há quem diga que depois disso Anita tenha acalmado seu ânimo voraz de loucuras, mas ainda hoje têm-se registros de confusões e balbúrdias que lhe são conectadas.

XII

A implicação filosófica da evolução científica - leia-se novas maneiras de interpretar e entender o universo, a natureza, a realidade - é sumariamente menosprezada por quem divulga, financia, e faz a ciência.
O desenvolvimento tecnológico é repetidamente mencionado como o produto positivo e propulsor da aquisição e ampliação de novas teorias, novas visões da natureza. 
As descrições atuais da gravidade e todos os desdobramentos do conhecimento do eletromagnetismo - tudo acumulado e aprimorado, e ainda em evolução, como nós - nos proporcionam hoje a capacidade inédita de uma comunicação global por meio da internet, em que interações instantâneas de indivíduos (chamadas "em tempo real", existe um tempo real?) ocorrem não mais no plano mecânico, mas no virtual, eletromagnético, além da capacidade orgânica do nosso corpo, mas tornadas possíveis pela inserção prática do desenvolvimento da ciência por dispositivos computadores. É a evolução entrando no campo das nossas relações de uma maneira rápida, drástica e irreversível.

Somos uma espécie que se destaca pela curiosidade, raciocínio, superação, e continuamos usando nosso desenvolvimento intelectual para compensar nossa fragilidade física, como uma herança ancestral de comportamento. Um homem, só, num ecossistema selvagem, tem dificuldade de sobrevivência. Não somos individualmente propícios à sobrevivência num contexto fora da civilização que nos abriga.

Nossos esforços e pensamentos devem se direcionar ao compreendimento geral do universo, o que fomos capazes até agora de absorver e ao que podemos ainda aprender, ao invés de apontar numa evolução individualista, fragmentária, que cria de propósito problemas demais, sob rédeas de quem passará por cima deles, com lucro e exploração. Há um interesse persistente, de poucos dos muitos que somos, de que o conteúdo intelectual de cada um continue sendo distribuído num contexto econômico monetário, no antigo formato de troca. A ciência cria uma maneira de ultrapassar essa barreira, a culminação dos conhecimentos de toda a história no desenvolvimento da internet dá condição hoje que qualquer um possa ter acesso ao que bem entender, a compartilhar ideias, queixas e soluções em escala global, livre de fronteiras e mercados. O conteúdo artístico-científico-imaginário-cultural-onírico-evolutivo de cada um de nós, se é uma propriedade, é uma propriedade da natureza, cujo acesso jamais deve ser negado ou manipulado. O acesso é universal.

Seria mais vantajoso e elevado, pro cosmos, se houvessem mais pessoas que entendessem finalmente os movimentos e a tridimensionalidade do sistema solar do que as que assistem filmes 3D no cinema. A lua tão perto, tão massiva e corpórea, esférica, e tanta gente ainda vendo-a como um sorriso, como um disco. Os planetas girando tão lindamente em suas órbitas gigantescas e pessoas preocupadas com a pequenez da ascendência do seu signo. Gente tomando decisões tão importantes desconhecendo o que é tão valioso. Os ciclos da nossa terra sincronizados com os movimentos do nosso planeta, da lua, do sol, e pessoas se perdendo num calendário plano, aritmético. O calendário é uma tabela astronômica, os números são quantificações humanas da natureza e além, representações lógicas do abstrato. Tudo acontecendo ao mesmo tempo num céu que vê metade do infinito, que é infinito, e gente acendendo luzes para um deus sujeito, figura que conjuga verbo, com personalidade e memória, humano sobretudo. Um deus gramatical, encerrado nas letras do homem, limitado pelas palavras de todas as línguas. Gente que ignora que tudo é um só e que cada um é tudo. 


Sonho erótico

Ela era esplêndida, divina, maravilhosa, era a beleza, o espetáculo.
A outra chegara ali e se excitou, se tocou, envolvida com o mistério da primeira, tão instigante, tão linda. Se concentrou em cada detalhe, em cada curva dela, assistiu cada movimento, toda a sutileza. Se perdeu em seu comportamento sensual e labiríntico. Até que muito passou, que a outra só a envolvia-a mais e mais, num caminho sem volta, num desejo mútuo de se expandir, que percebeu que jamais conseguiria gozar olhando-a apenas, foi quando teve consciência que ela a estava convidando, se insinuando. E foi nesse tempo que a ciência deixou de se masturbar e finalmente fez sexo com a natureza, numa transa apaixonada e intensa.

Esse é só um dos sonhos eróticos da natureza em sua consciência universal, nós somos todos os outros.

XI

Passando de carro num fim de tarde na avenida Cidade Jardim, tem um cara do lado de uma bicicleta encostada olhando pro horizonte com um binóculo. Quem faz isso? Existe isso?

Tava ali vendo a lua cheia nascer e ia oferecer o binóculo pra qualquer pessoa que viesse andando pela calçada.

Carro passando, bozina!

-Ó o cara com o binóculo ali! Tá olhando o que rapá?
-Tô vendo a Terra girar!
Provavelmente o cara foi sem entender. Do carro ninguém entende nada. Nessa idade média moderna ainda é o céu que gira.

A Terra girando e ninguém passou. Ninguém andando no chão. Só gente encaixotada flutuando ao redor. Jardim de pedra.

Depois guardei o binóculo e parti na bike, rachando o bico.

X

Vinha vindo uma mulher enorme, muito gorda. Deve fazer tempo que essa mulher não vê sua prórpia buceta, porque até o joelhos não há espaço algum entre as pernas, apenas um emaranhado borbulhante de gordura. Seu andar está afetado, seu corpo está aleijado de forma, de feminilidade. Há tempos certamente que essa mulher não faz sexo, seu rosto está carrancudo, não parece ser uma pessoa feliz. Que homem se enveredaria naquele poço de banha? Essa mulher trocou o gozar pelo comer. Talvez sua mente esteja tão destroçada quanto o corpo, talvez um é reflexo do outro. Seu corpo veio se deteriorando e sua mente abdicou de lucidez e bom senso para acompanhar o trajeto sedentário dos seus hábitos físicos, ou talvez por sua mente inicialmente ser tortuosa seu corpo requeriu uma destruíção equivalente, um preço ao desbalanço e confusões de suas emoções. Essa mulher é uma imensa cicatriz, seu peso colapsa sobre ela mesma. Desfigurada ela caminha na procura de sentido em uma vida absurda. Essa mulher é a humanidade inteira, se entupindo a ponto de quebrar o próprio fêmur num passo curto em busca do que sua confusão lhe sugere.

Ramón Ramirez

-Quem é Ramón Ramirez?
-Ramón Ramirez é um personagem de um sonho de Mikola Blokhin, um jogador de xadrez ucrâniano que vive na Romênia.
-E Mikola Blokhin sabe disso?
-Claro que não.
-E quando Mikola sonhou com Ramón Ramirez?
-No tempo do sonho ou no tempo de Mikola?
-No tempo do sonho.- disse coçando a cabeça, estava devagar e com as ideias vacilando.
A mulher então respondeu como quem encara uma criança chata:
-Não existe tempo do sonho.
-Ah... concordou sem muito entender.
-No tempo de Mikola foi numa tarde depois do almoço, quando dormiu de perna pra cima pensando na janta e na história das roupas.
Estava ainda roendo o tempo do sonho."É claro que existe. Senão sonharíamos como em foto, parados."
-O que existe é a consciência do tempo no sonho. - Uma menina a sua frente lhe falou, segurando uma borboleta na mão e vestindo um vestido vermelho.
A mulher que ali estava sumira. Perguntou para a menina:
-Então talvez você me explique melhor quem é Ramón Ramirez!
-Ele é meu filho.
-Mas você é tão nova!
-Não sou não. Tenho quatrocentos e treze anos, nasci na noite em que Johannes Kepler dormiu cedo porque estava nublado em Praga.
-Ah sim. Já tinha se perdido quando a menina saiu correndo atrás da borboleta que voara.
Foi andar um pouco para se refrescar, à sua frente um grande lago refletia um mosaico de nuvens e de longe se via uma grande estátua em bronze de um homem nu olhando para cima, ao pé da estátua as inscrições douradas: RAMÓN RAMIREZ. Andou um pouco ao redor da estátua e depois foi procurar um banco para sentar quando encontrou com uma mulher catando jabuticaba numa pequena árvore. Estava triste e quis puxar assunto, e perguntou displicentemente:
-Quem é Ramón Ramirez?

Fedor



Valentim acordou suado, mas tava frio, mesmo com o Sol aparecendo depois de algumas semanas. Tinha que ir trabalhar, o suor devia ser já a premonição do corpo ao sofrimento da rotina que chegava de novo depois de um delírio tão agradável no sono. Tinha sonhado que tava fumando haxixe na escola em que estudou quando era adolescente. Acordou no meio da discussão com o professor de geografia que queria levar pra casa o seu cigarro. Pelo menos o trabalho não era longe, dava pra ir andando, não precisava pegar a bosta do ônibus lotado, cheio de gente falando merda. Animado com o sol foi de bicicleta, na velocidade ideal de um cruzeiro - nem tão devagar como a caminhada e nem tão rápido como um carro - o bastante pra perceber o seu redor e não enjoar dele. O que incomodava ele no trabalho era que a sala dele era compartilhada com mais umas seis pessoas e todo mundo era unânime em concordar no que era contra a sua preferência de ambiente: quando tava quente, fechavam tudo e colocavam o ar condicionado no máximo, tiravam uns agasalhos da mochila e se emperequetavam todos lá dentro da caixa, com aquele ar seco, frio e fedido em volta dele e lá fora um puta solzão lindo, batendo nas folhas das árvores e refletindo aquele verde fresco e vivo, nem sentia muito frio, o desagradável era aquele ar morto, isolado; quando tava frio eles queriam tudo fechado também, sempre tava tudo fechado, todo mundo de agasalho e gente espirrando. Por ele ficava tudo sempre aberto, tá com calor vai com pouca roupa! Ficava feliz que no trabalho deixavam ele entrar de bermuda. O sonho era ir de chinelo. "Tá com frio leva umas jaqueta pesada, toma chá, sabe lá o quê". Nesse dia de sol com frio foi uma mistura boa. Todo mundo sentado lá de frente do computador. Depois de sentar e começar a fazer o que tinha pra fazer é que reparou que tava fedendo a mijo. Na adolescência ficava incomodado com fedor de suor e mijo, quando sentia logo achava que era ele mesmo quem fedia. Uma vez na escola evitou todas as pessoas e não conversou nada com ninguém porque tinha vindo correndo de baixo de sol e tinha esquecido de passar desodorante, mas depois quando chegou em casa se cheirou todo e viu que nem tava fedido, era noia. Mas nesse dia o fedor de mijo tava muito forte. Perdeu a concentração do trabalho. A urina seca na bermuda exalava longe. Ficou receoso quando um colega veio pedir opinião sobre uma tabela. Desconversou e foi pra fora. Levou uns livros pra calçada e sentou no chão debaixo do sol pra ver se o fedor passava, ou pelo menos se num lugar aberto sentia menos aquela ureia azeda. Tinha uma reunião com o chefe em menos de uma hora. Dava pra ir em casa trocar de roupa, mas achou que ia ser muita noia. Foi mijado mesmo. O chefe nem reparou, ou se reparou disfarçou bem. Depois do trabalho foi jogar bola, com a mesma roupa que tava. Jogou bem e esqueceu do mijo. Na hora de ir embora se aliviou quando percebeu que o fedor de suor já tava mais forte que o fedor do mijo. Cheiro de suor é muito mais tolerável do que de mijo. "O suor próprio tem cheiro de você mesmo, da pra aturar. O tenso é o cheiro do mijo, que de todo mundo é igual, azedo já". Na verdade ele nem ligava mais pra quem ia sentir o fedor, não tava nem aí pra nada mesmo. O foda era ele mesmo ficar aturando aquele azedo. "De todos os sentidos o olfato se destaca em perceber o invisível, o atômico". O elementar e volátil fedor de tudo.

IX


Parto de um ponto de partida num ponto pitoresco, primeiro passo, penso primeiro, um parto... pauta no papel, pincel pelado, que pecado. A própria palavra, pena, que prévia primordial e pálida. Pro pasto de pétalas, do poço da pia ao pano de pratos, preciso! Pensando... partir pra perto, precisa? Perturbado e pensante, pacato primata, possesso, pirado. Paz presente. Parto do ponto, parado, pensando. Pronto!

VIII


No fundo quem tem dois se esgota em um só no avesso do complexo que é adverso e inacabado, porta aberta pro engano e pista de decolagem do inseguro. Entra no próprio turbilhão de pensamentos e arranca do espelho o defeito do outro, olha pra dentro do buraco que mais que tudo e antes de nada não cabe nesse céu, nem em outro céu, nem em todos os céus juntos, nem num tempo possível. E o que se espreguiça numa manhã tem na noite um ensaio do inútil, do verme estragado pendurado na orelha, pesando na cabeça e no ombro do aleijado as dores do anfitrião. E quem morde o próprio nariz entra no circuito de vez, e a perplexidade da percepção se enrola no imbróglio da mistificação e nem mais a consciência escapa da armadilha do misterioso e se ancora na adulação do inexplicável. Quem se esgota no fundo se acha em muitos. O que é leviano deixa sua cicatriz, no oposto da virtude, consagrado refúgio da dor, templo de sofrer.

tv


(  ) masturbação minha é televisão
(  ) minha televisão é masturbação
(  ) masturbação é minha televisão

VII


Bicicleta amarrada na trazeira do carro. Viagem de 4 dias. 3 pessoas. Não sei dirigir. Me chamaram de preguiçoso no último dia. Mandei soltar a bicicleta no chão, peguei a mochila e parti. Te encontro no destino rapá, esperando o preguiçoso.

VI

Quem já psicodelou teve a oportunidade de perceber que a realidade gerada pelos sentidos é altamente maleável, e deve reconhecer nesse avanço cultural-tecnológico empenhado num deslumbramento virtual, completamente imerso no domínio dos sentidos, um caminho banal/tedioso/circular.

Fazenda

Pôr-do-sol na cerca da fazenda. De cima do morro, de um lado fazenda de cavalo, um cavalo, talvez três, uma porção de mato; do outro lado fazenda de gente, muita gente, uma porção de concreto. Com o olho nu, em cima das casas, dá pra ver vênus e a lua enquanto o horizonte tampa o sol, depois júpiter. Muito longe, enorme. Mas a gente prefere continuar olhando pro chão, acende a luz do poste. Marte em cima do cavalo. O cavalo come, fode e dorme. A gente come - carne de cavalo até -, trabalha, reza, briga, bebe, compra, fode e dorme. Eu sou mais o cavalo. Fumacê. Tão passando inseticida na fazenda de gente. Tem que matar a praga pra não estragar a produção em larga escala.  

V

Vi hoje, de minha janela, seis raios caírem numa criança rodando o seu peão. Desde o século XII que não via nada assim. No primeiro raio a criança se tornou um compasso, e o som do trovão acelerou seu peão. No segundo raio o compasso virou uma garrafa de vinho chileno, e o peão rodando repetiu o som do trovão. No terceiro raio o vinho dentro da garrafa evaporou e deu origem num pé de laranjeira, e o trovão que estava atrasado não apareceu. No quarto raio a garrafa e o pé de laranjeira se misturaram e formaram uma poça de lama, e o peão sem muito ânimo pulou junto ao trovão. No quinto raio a poça de lama erodiu em um vulcão, que barulhento demais, nem atenção ao trovão deu, enquanto que o peão, com calor, do vento fez um cobertor. No sexto raio o vulcão que era fumegante se apagou, e um diamante preto apareceu, o peão esperto em seu cobertor inverteu seu giro no trovão, mas morreu de susto quando o terceiro estalo que vinha de longe fez da criança um pedaço de carvão.

Tempo

O tempo é uma grande ilusão. É superestimado por nossas convenções, que não chegam perto da grande realidade desconfortável e intragável de que somos conduzidos como indivíduos e corpos infinitamente separados por intervalos imperceptíveis, mas existentes, que nada significam em nossas rotinas inúteis, ou melhor, que nossas rotinas inúteis de nada alteram o grande surreal de que tudo o que vimos ou sentimos é nada mais que um passado recente. O presente é uma ilusão, o futuro nunca vai existir. O que vai se perpetuar para sempre é um passado imediato, por mais perto que esteja de nós, tudo é passado. O amanhã é um passado. A palavra que você lê agora é o passado. Você não está lendo esse texto agora, você o leu há um tempo. Tudo está limitado a ações do que já foi. Por mais recente que tenha sido o que foi. Nada que sente terá consciência real do futuro ou do presente, apenas uma especulação baseada no passado que se acumula eternamente em instantes anteriores ao pensamento. 

Hardcore Tourism

São José dos Campos
They say that the Banhado is the postal card of São José. It’s a nice view, ok. But it’s noisy and crowded, not comfortable. A better way to watch the sunset it’s on a peaceful and isolated place, or climbing a tree. There’s a nice tree you can climb deep in the Banhado. Surrounded by a farm with horses and cows, and even a railroad. You can reach it easily by bicycle or walking, following the roads that go down in the Banhado’s bottom, directed by the signs to ‘Res Esplanada do Sol’. Reaching ‘Res Esplanada do Sol’ you keep walking in the not paved road and go straight ahead. The tree is on the end of the road. Just before the railroad, where sometimes a huge and noisy train passes. The tree isn’t very tall, but it’s lonely and easy to climb. It’s a inhabited place, but people are far. Sex and drugs are possible. Go for the sunset, the night sky is equally valuable.