Anita


Era 1609 quando Anita saiu flutuando de Praga procurando fugir do tédio e da tortura, e por mais de trezentos anos vagou até firmar pé em lugar algum, quando então não mais fazia sentido sua viagem, e como sua própria existência já era extraordinária. 
No fluir do futuro elegeu os dois principais - e naturalmente secundários (por serem dois) - enganos da humanidade. Entre eles, o de acreditar que o símbolo substitui o significado, e o outro o de não considerar um sonho como parte da Realidade.
Por muito tempo pingou de cabeça em cabeça, tendo inclusive ficado presa por anos num guarda-roupas em Oxford se alimentando apenas de pão e vinho, quando finalmente conseguiu em 1963 arrebentar-lhe as portas, e por puro descuido e afobação chegou com pressa demais nos delírios de Aldous Huxley, mergulhado em LSD, e as visões que lhe entregou do século XXI foram demais para suportar. Segundo conta em sua biografia, Anita nada tem a ver com o incidente em Dallas, alegando que àquela hora já estava chegando na Bolívia, conversando em quechua com o décimo quarto decendente de Pachacuti.
Antes disso, no entanto, Anita passou doces anos nas ilhas do Pacífico praticando orgias intermináveis em dimensões diferentes. Uma de suas amantes mais próximas dessa época afirma vir daí seu único filho. Nascido do choque de oito gametas na dimensão unidirecional do tempo (incluindo um grão de pólen e um átomo excitado de enxofre), foi posteriormente diluído no espaço, desconhecedor do seus pais e de sua forma.
Há quem diga que depois disso Anita tenha acalmado seu ânimo voraz de loucuras, mas ainda hoje têm-se registros de confusões e balbúrdias que lhe são conectadas.

XII

A implicação filosófica da evolução científica - leia-se novas maneiras de interpretar e entender o universo, a natureza, a realidade - é sumariamente menosprezada por quem divulga, financia, e faz a ciência.
O desenvolvimento tecnológico é repetidamente mencionado como o produto positivo e propulsor da aquisição e ampliação de novas teorias, novas visões da natureza. 
As descrições atuais da gravidade e todos os desdobramentos do conhecimento do eletromagnetismo - tudo acumulado e aprimorado, e ainda em evolução, como nós - nos proporcionam hoje a capacidade inédita de uma comunicação global por meio da internet, em que interações instantâneas de indivíduos (chamadas "em tempo real", existe um tempo real?) ocorrem não mais no plano mecânico, mas no virtual, eletromagnético, além da capacidade orgânica do nosso corpo, mas tornadas possíveis pela inserção prática do desenvolvimento da ciência por dispositivos computadores. É a evolução entrando no campo das nossas relações de uma maneira rápida, drástica e irreversível.

Somos uma espécie que se destaca pela curiosidade, raciocínio, superação, e continuamos usando nosso desenvolvimento intelectual para compensar nossa fragilidade física, como uma herança ancestral de comportamento. Um homem, só, num ecossistema selvagem, tem dificuldade de sobrevivência. Não somos individualmente propícios à sobrevivência num contexto fora da civilização que nos abriga.

Nossos esforços e pensamentos devem se direcionar ao compreendimento geral do universo, o que fomos capazes até agora de absorver e ao que podemos ainda aprender, ao invés de apontar numa evolução individualista, fragmentária, que cria de propósito problemas demais, sob rédeas de quem passará por cima deles, com lucro e exploração. Há um interesse persistente, de poucos dos muitos que somos, de que o conteúdo intelectual de cada um continue sendo distribuído num contexto econômico monetário, no antigo formato de troca. A ciência cria uma maneira de ultrapassar essa barreira, a culminação dos conhecimentos de toda a história no desenvolvimento da internet dá condição hoje que qualquer um possa ter acesso ao que bem entender, a compartilhar ideias, queixas e soluções em escala global, livre de fronteiras e mercados. O conteúdo artístico-científico-imaginário-cultural-onírico-evolutivo de cada um de nós, se é uma propriedade, é uma propriedade da natureza, cujo acesso jamais deve ser negado ou manipulado. O acesso é universal.

Seria mais vantajoso e elevado, pro cosmos, se houvessem mais pessoas que entendessem finalmente os movimentos e a tridimensionalidade do sistema solar do que as que assistem filmes 3D no cinema. A lua tão perto, tão massiva e corpórea, esférica, e tanta gente ainda vendo-a como um sorriso, como um disco. Os planetas girando tão lindamente em suas órbitas gigantescas e pessoas preocupadas com a pequenez da ascendência do seu signo. Gente tomando decisões tão importantes desconhecendo o que é tão valioso. Os ciclos da nossa terra sincronizados com os movimentos do nosso planeta, da lua, do sol, e pessoas se perdendo num calendário plano, aritmético. O calendário é uma tabela astronômica, os números são quantificações humanas da natureza e além, representações lógicas do abstrato. Tudo acontecendo ao mesmo tempo num céu que vê metade do infinito, que é infinito, e gente acendendo luzes para um deus sujeito, figura que conjuga verbo, com personalidade e memória, humano sobretudo. Um deus gramatical, encerrado nas letras do homem, limitado pelas palavras de todas as línguas. Gente que ignora que tudo é um só e que cada um é tudo. 


Sonho erótico

Ela era esplêndida, divina, maravilhosa, era a beleza, o espetáculo.
A outra chegara ali e se excitou, se tocou, envolvida com o mistério da primeira, tão instigante, tão linda. Se concentrou em cada detalhe, em cada curva dela, assistiu cada movimento, toda a sutileza. Se perdeu em seu comportamento sensual e labiríntico. Até que muito passou, que a outra só a envolvia-a mais e mais, num caminho sem volta, num desejo mútuo de se expandir, que percebeu que jamais conseguiria gozar olhando-a apenas, foi quando teve consciência que ela a estava convidando, se insinuando. E foi nesse tempo que a ciência deixou de se masturbar e finalmente fez sexo com a natureza, numa transa apaixonada e intensa.

Esse é só um dos sonhos eróticos da natureza em sua consciência universal, nós somos todos os outros.

XI

Passando de carro num fim de tarde na avenida Cidade Jardim, tem um cara do lado de uma bicicleta encostada olhando pro horizonte com um binóculo. Quem faz isso? Existe isso?

Tava ali vendo a lua cheia nascer e ia oferecer o binóculo pra qualquer pessoa que viesse andando pela calçada.

Carro passando, bozina!

-Ó o cara com o binóculo ali! Tá olhando o que rapá?
-Tô vendo a Terra girar!
Provavelmente o cara foi sem entender. Do carro ninguém entende nada. Nessa idade média moderna ainda é o céu que gira.

A Terra girando e ninguém passou. Ninguém andando no chão. Só gente encaixotada flutuando ao redor. Jardim de pedra.

Depois guardei o binóculo e parti na bike, rachando o bico.

X

Vinha vindo uma mulher enorme, muito gorda. Deve fazer tempo que essa mulher não vê sua prórpia buceta, porque até o joelhos não há espaço algum entre as pernas, apenas um emaranhado borbulhante de gordura. Seu andar está afetado, seu corpo está aleijado de forma, de feminilidade. Há tempos certamente que essa mulher não faz sexo, seu rosto está carrancudo, não parece ser uma pessoa feliz. Que homem se enveredaria naquele poço de banha? Essa mulher trocou o gozar pelo comer. Talvez sua mente esteja tão destroçada quanto o corpo, talvez um é reflexo do outro. Seu corpo veio se deteriorando e sua mente abdicou de lucidez e bom senso para acompanhar o trajeto sedentário dos seus hábitos físicos, ou talvez por sua mente inicialmente ser tortuosa seu corpo requeriu uma destruíção equivalente, um preço ao desbalanço e confusões de suas emoções. Essa mulher é uma imensa cicatriz, seu peso colapsa sobre ela mesma. Desfigurada ela caminha na procura de sentido em uma vida absurda. Essa mulher é a humanidade inteira, se entupindo a ponto de quebrar o próprio fêmur num passo curto em busca do que sua confusão lhe sugere.

Ramón Ramirez

-Quem é Ramón Ramirez?
-Ramón Ramirez é um personagem de um sonho de Mikola Blokhin, um jogador de xadrez ucrâniano que vive na Romênia.
-E Mikola Blokhin sabe disso?
-Claro que não.
-E quando Mikola sonhou com Ramón Ramirez?
-No tempo do sonho ou no tempo de Mikola?
-No tempo do sonho.- disse coçando a cabeça, estava devagar e com as ideias vacilando.
A mulher então respondeu como quem encara uma criança chata:
-Não existe tempo do sonho.
-Ah... concordou sem muito entender.
-No tempo de Mikola foi numa tarde depois do almoço, quando dormiu de perna pra cima pensando na janta e na história das roupas.
Estava ainda roendo o tempo do sonho."É claro que existe. Senão sonharíamos como em foto, parados."
-O que existe é a consciência do tempo no sonho. - Uma menina a sua frente lhe falou, segurando uma borboleta na mão e vestindo um vestido vermelho.
A mulher que ali estava sumira. Perguntou para a menina:
-Então talvez você me explique melhor quem é Ramón Ramirez!
-Ele é meu filho.
-Mas você é tão nova!
-Não sou não. Tenho quatrocentos e treze anos, nasci na noite em que Johannes Kepler dormiu cedo porque estava nublado em Praga.
-Ah sim. Já tinha se perdido quando a menina saiu correndo atrás da borboleta que voara.
Foi andar um pouco para se refrescar, à sua frente um grande lago refletia um mosaico de nuvens e de longe se via uma grande estátua em bronze de um homem nu olhando para cima, ao pé da estátua as inscrições douradas: RAMÓN RAMIREZ. Andou um pouco ao redor da estátua e depois foi procurar um banco para sentar quando encontrou com uma mulher catando jabuticaba numa pequena árvore. Estava triste e quis puxar assunto, e perguntou displicentemente:
-Quem é Ramón Ramirez?

Fedor



Valentim acordou suado, mas tava frio, mesmo com o Sol aparecendo depois de algumas semanas. Tinha que ir trabalhar, o suor devia ser já a premonição do corpo ao sofrimento da rotina que chegava de novo depois de um delírio tão agradável no sono. Tinha sonhado que tava fumando haxixe na escola em que estudou quando era adolescente. Acordou no meio da discussão com o professor de geografia que queria levar pra casa o seu cigarro. Pelo menos o trabalho não era longe, dava pra ir andando, não precisava pegar a bosta do ônibus lotado, cheio de gente falando merda. Animado com o sol foi de bicicleta, na velocidade ideal de um cruzeiro - nem tão devagar como a caminhada e nem tão rápido como um carro - o bastante pra perceber o seu redor e não enjoar dele. O que incomodava ele no trabalho era que a sala dele era compartilhada com mais umas seis pessoas e todo mundo era unânime em concordar no que era contra a sua preferência de ambiente: quando tava quente, fechavam tudo e colocavam o ar condicionado no máximo, tiravam uns agasalhos da mochila e se emperequetavam todos lá dentro da caixa, com aquele ar seco, frio e fedido em volta dele e lá fora um puta solzão lindo, batendo nas folhas das árvores e refletindo aquele verde fresco e vivo, nem sentia muito frio, o desagradável era aquele ar morto, isolado; quando tava frio eles queriam tudo fechado também, sempre tava tudo fechado, todo mundo de agasalho e gente espirrando. Por ele ficava tudo sempre aberto, tá com calor vai com pouca roupa! Ficava feliz que no trabalho deixavam ele entrar de bermuda. O sonho era ir de chinelo. "Tá com frio leva umas jaqueta pesada, toma chá, sabe lá o quê". Nesse dia de sol com frio foi uma mistura boa. Todo mundo sentado lá de frente do computador. Depois de sentar e começar a fazer o que tinha pra fazer é que reparou que tava fedendo a mijo. Na adolescência ficava incomodado com fedor de suor e mijo, quando sentia logo achava que era ele mesmo quem fedia. Uma vez na escola evitou todas as pessoas e não conversou nada com ninguém porque tinha vindo correndo de baixo de sol e tinha esquecido de passar desodorante, mas depois quando chegou em casa se cheirou todo e viu que nem tava fedido, era noia. Mas nesse dia o fedor de mijo tava muito forte. Perdeu a concentração do trabalho. A urina seca na bermuda exalava longe. Ficou receoso quando um colega veio pedir opinião sobre uma tabela. Desconversou e foi pra fora. Levou uns livros pra calçada e sentou no chão debaixo do sol pra ver se o fedor passava, ou pelo menos se num lugar aberto sentia menos aquela ureia azeda. Tinha uma reunião com o chefe em menos de uma hora. Dava pra ir em casa trocar de roupa, mas achou que ia ser muita noia. Foi mijado mesmo. O chefe nem reparou, ou se reparou disfarçou bem. Depois do trabalho foi jogar bola, com a mesma roupa que tava. Jogou bem e esqueceu do mijo. Na hora de ir embora se aliviou quando percebeu que o fedor de suor já tava mais forte que o fedor do mijo. Cheiro de suor é muito mais tolerável do que de mijo. "O suor próprio tem cheiro de você mesmo, da pra aturar. O tenso é o cheiro do mijo, que de todo mundo é igual, azedo já". Na verdade ele nem ligava mais pra quem ia sentir o fedor, não tava nem aí pra nada mesmo. O foda era ele mesmo ficar aturando aquele azedo. "De todos os sentidos o olfato se destaca em perceber o invisível, o atômico". O elementar e volátil fedor de tudo.

IX


Parto de um ponto de partida num ponto pitoresco, primeiro passo, penso primeiro, um parto... pauta no papel, pincel pelado, que pecado. A própria palavra, pena, que prévia primordial e pálida. Pro pasto de pétalas, do poço da pia ao pano de pratos, preciso! Pensando... partir pra perto, precisa? Perturbado e pensante, pacato primata, possesso, pirado. Paz presente. Parto do ponto, parado, pensando. Pronto!

VIII


No fundo quem tem dois se esgota em um só no avesso do complexo que é adverso e inacabado, porta aberta pro engano e pista de decolagem do inseguro. Entra no próprio turbilhão de pensamentos e arranca do espelho o defeito do outro, olha pra dentro do buraco que mais que tudo e antes de nada não cabe nesse céu, nem em outro céu, nem em todos os céus juntos, nem num tempo possível. E o que se espreguiça numa manhã tem na noite um ensaio do inútil, do verme estragado pendurado na orelha, pesando na cabeça e no ombro do aleijado as dores do anfitrião. E quem morde o próprio nariz entra no circuito de vez, e a perplexidade da percepção se enrola no imbróglio da mistificação e nem mais a consciência escapa da armadilha do misterioso e se ancora na adulação do inexplicável. Quem se esgota no fundo se acha em muitos. O que é leviano deixa sua cicatriz, no oposto da virtude, consagrado refúgio da dor, templo de sofrer.

tv


(  ) masturbação minha é televisão
(  ) minha televisão é masturbação
(  ) masturbação é minha televisão

VII


Bicicleta amarrada na trazeira do carro. Viagem de 4 dias. 3 pessoas. Não sei dirigir. Me chamaram de preguiçoso no último dia. Mandei soltar a bicicleta no chão, peguei a mochila e parti. Te encontro no destino rapá, esperando o preguiçoso.

VI

Quem já psicodelou teve a oportunidade de perceber que a realidade gerada pelos sentidos é altamente maleável, e deve reconhecer nesse avanço cultural-tecnológico empenhado num deslumbramento virtual, completamente imerso no domínio dos sentidos, um caminho banal/tedioso/circular.

Fazenda

Pôr-do-sol na cerca da fazenda. De cima do morro, de um lado fazenda de cavalo, um cavalo, talvez três, uma porção de mato; do outro lado fazenda de gente, muita gente, uma porção de concreto. Com o olho nu, em cima das casas, dá pra ver vênus e a lua enquanto o horizonte tampa o sol, depois júpiter. Muito longe, enorme. Mas a gente prefere continuar olhando pro chão, acende a luz do poste. Marte em cima do cavalo. O cavalo come, fode e dorme. A gente come - carne de cavalo até -, trabalha, reza, briga, bebe, compra, fode e dorme. Eu sou mais o cavalo. Fumacê. Tão passando inseticida na fazenda de gente. Tem que matar a praga pra não estragar a produção em larga escala.  

V

Vi hoje, de minha janela, seis raios caírem numa criança rodando o seu peão. Desde o século XII que não via nada assim. No primeiro raio a criança se tornou um compasso, e o som do trovão acelerou seu peão. No segundo raio o compasso virou uma garrafa de vinho chileno, e o peão rodando repetiu o som do trovão. No terceiro raio o vinho dentro da garrafa evaporou e deu origem num pé de laranjeira, e o trovão que estava atrasado não apareceu. No quarto raio a garrafa e o pé de laranjeira se misturaram e formaram uma poça de lama, e o peão sem muito ânimo pulou junto ao trovão. No quinto raio a poça de lama erodiu em um vulcão, que barulhento demais, nem atenção ao trovão deu, enquanto que o peão, com calor, do vento fez um cobertor. No sexto raio o vulcão que era fumegante se apagou, e um diamante preto apareceu, o peão esperto em seu cobertor inverteu seu giro no trovão, mas morreu de susto quando o terceiro estalo que vinha de longe fez da criança um pedaço de carvão.

Tempo

O tempo é uma grande ilusão. É superestimado por nossas convenções, que não chegam perto da grande realidade desconfortável e intragável de que somos conduzidos como indivíduos e corpos infinitamente separados por intervalos imperceptíveis, mas existentes, que nada significam em nossas rotinas inúteis, ou melhor, que nossas rotinas inúteis de nada alteram o grande surreal de que tudo o que vimos ou sentimos é nada mais que um passado recente. O presente é uma ilusão, o futuro nunca vai existir. O que vai se perpetuar para sempre é um passado imediato, por mais perto que esteja de nós, tudo é passado. O amanhã é um passado. A palavra que você lê agora é o passado. Você não está lendo esse texto agora, você o leu há um tempo. Tudo está limitado a ações do que já foi. Por mais recente que tenha sido o que foi. Nada que sente terá consciência real do futuro ou do presente, apenas uma especulação baseada no passado que se acumula eternamente em instantes anteriores ao pensamento. 

Hardcore Tourism

São José dos Campos
They say that the Banhado is the postal card of São José. It’s a nice view, ok. But it’s noisy and crowded, not comfortable. A better way to watch the sunset it’s on a peaceful and isolated place, or climbing a tree. There’s a nice tree you can climb deep in the Banhado. Surrounded by a farm with horses and cows, and even a railroad. You can reach it easily by bicycle or walking, following the roads that go down in the Banhado’s bottom, directed by the signs to ‘Res Esplanada do Sol’. Reaching ‘Res Esplanada do Sol’ you keep walking in the not paved road and go straight ahead. The tree is on the end of the road. Just before the railroad, where sometimes a huge and noisy train passes. The tree isn’t very tall, but it’s lonely and easy to climb. It’s a inhabited place, but people are far. Sex and drugs are possible. Go for the sunset, the night sky is equally valuable.

IV

eu quero a sombra viva do verde ao invés do amianto, do concreto. eu quero o escuro da noite, o calor do dia. eu quero o verde vivo que dá sombra, que destrói o concreto. ao invés do calor do amianto que faz da minha noite um dia escuro

III

Palavra não chega perto do sentimento. Pensar em palavras é uma maldição do humano. Existe infinito dentro de todo mundo, mas palavra nenhuma chega lá, no primitivo, no real.
Pensar em outras línguas te ajuda a perceber isso. Se em cada lugar do mundo um monte de som completamente diferentes foram ganhando significados iguais, a língua não é maior que uma coleção de fonemas. A escrita tenta transcender isso, e a própria língua tenta associar algum som com o abstrato. Amor, angústia, tesão. Eu não acredito na língua, ela me expande para o outro, mas diminui a mim mesmo. Eu acredito no ato e no olho. Tentemos pensar fora das palavras, em realidades maiores, menos lógicas, e chegamos mais perto de momentos legítimos, profundos.
As melhores e mais intensas sensações, sentimentos, situações, experiências que já me ocorreram se enraízam em mim numa relação de lembrança daquelas em que 'não há palavras para descrever'.