VI

Quem já psicodelou teve a oportunidade de perceber que a realidade gerada pelos sentidos é altamente maleável, e deve reconhecer nesse avanço cultural-tecnológico empenhado num deslumbramento virtual, completamente imerso no domínio dos sentidos, um caminho banal/tedioso/circular.

Fazenda

Pôr-do-sol na cerca da fazenda. De cima do morro, de um lado fazenda de cavalo, um cavalo, talvez três, uma porção de mato; do outro lado fazenda de gente, muita gente, uma porção de concreto. Com o olho nu, em cima das casas, dá pra ver vênus e a lua enquanto o horizonte tampa o sol, depois júpiter. Muito longe, enorme. Mas a gente prefere continuar olhando pro chão, acende a luz do poste. Marte em cima do cavalo. O cavalo come, fode e dorme. A gente come - carne de cavalo até -, trabalha, reza, briga, bebe, compra, fode e dorme. Eu sou mais o cavalo. Fumacê. Tão passando inseticida na fazenda de gente. Tem que matar a praga pra não estragar a produção em larga escala.  

V

Vi hoje, de minha janela, seis raios caírem numa criança rodando o seu peão. Desde o século XII que não via nada assim. No primeiro raio a criança se tornou um compasso, e o som do trovão acelerou seu peão. No segundo raio o compasso virou uma garrafa de vinho chileno, e o peão rodando repetiu o som do trovão. No terceiro raio o vinho dentro da garrafa evaporou e deu origem num pé de laranjeira, e o trovão que estava atrasado não apareceu. No quarto raio a garrafa e o pé de laranjeira se misturaram e formaram uma poça de lama, e o peão sem muito ânimo pulou junto ao trovão. No quinto raio a poça de lama erodiu em um vulcão, que barulhento demais, nem atenção ao trovão deu, enquanto que o peão, com calor, do vento fez um cobertor. No sexto raio o vulcão que era fumegante se apagou, e um diamante preto apareceu, o peão esperto em seu cobertor inverteu seu giro no trovão, mas morreu de susto quando o terceiro estalo que vinha de longe fez da criança um pedaço de carvão.